A Beleza da Solidão
Vou começar com uma frase arrebatadora de Nietzsche: "Estando entre muitos, vivo como muitos e não penso como eu; após algum tempo, é como se quisessem me banir de mim mesmo e roubar-me a alma. Aborreço-me com todos e receio a todos. Então o deserto me é necessário, para ficar novamente bom." – Nietzsche, Aurora, §491. Assim, inicio meu texto sobre o que aprendi com a solidão.
Durante muito tempo, achei que as pessoas que viviam "sozinhas," fosse por opção ou por circunstâncias da vida, eram infelizes. Para minha surpresa, me vi só como nunca pensei que ficaria. No início, o desespero tomou conta de mim. Tive que reaprender a me valorizar e a não esperar que alguém fizesse isso por mim. Preparei-me para um encontro face a face comigo mesma e, para minha surpresa, eu mesma não estava lá. O que encontrei foi uma prisão entreaberta e algemas arrebentadas, cheias de sangue e sujeira. Perguntei-me: "O que fiz comigo mesma? O que aconteceu com a Michelle? Por que fiz isso com ela?"
Por muito tempo, eu e ela não nos falávamos, e eu nem sabia o motivo. Lembrei-me da nossa última conversa. Ela me disse algumas coisas, e eu simplesmente gritei para que se calasse. Disse que ela não podia entender o que eu estava fazendo. Eu precisava fazer aquilo em nome de um "propósito". Ela tentou falar comigo várias vezes, mas eu a calava, dizendo que ela não sabia de nada e que só precisava obedecer... Até que, um dia, ela gritou comigo e derrubou parte da estrutura da casa que eu estava construindo. Eu a xinguei, disse que era burra, que só fazia besteiras, que precisava ser como as outras: calada. Resolvi o problema da estrutura, mas a prendi bem longe de mim. Ela precisava ficar quieta, e deu certo. Ela gritava, mas eu quase não ouvia. E quando ouvia, fingia que não. Queria que ela desistisse... Mas nunca imaginei que ela conseguiria fugir.
Ela me enganou e conseguiu escapar. E pensei: e agora? Para onde ela foi?
Um dia, enquanto ia ao trabalho, ela me chamou... Senti um frio na espinha. Reclamei: "Por que você fugiu? Logo agora que preciso de você, resolve fugir?" Ela me olhou com puro deboche e disse: "Enquanto você não me deixar fazer o que quero, vou sempre desaparecer". Implorei por sua ajuda, e ela concordou sob uma condição: que eu permitisse que ela aparecesse. Aceitei. Ela disse: "Um dia, seremos uma só!" Desde então, com o tempo, nos tornamos uma. Hoje, sua voz ressoa com a minha.
No entanto, de vez em quando, na companhia de outros, parece que sua voz é novamente abafada. E então, entra em cena a frase de Nietzsche que mencionei no início do texto. Os pensamentos dos outros se tornam os meus, e calo a voz da Michelle novamente, sendo roubada de mim mesma e lançando-a de volta na prisão. Aborreço-me, me afasto de todos até encontrá-la, sozinha e presa, esperando por mim. Nessas horas, contento-me apenas em estar com ela e libertá-la todas as vezes que permito que a prendam novamente.
"Sim, minha força está na solidão; não tenho medo nem das chuvas tempestivas, nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite." – Clarice Lispector
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